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Na diferença

por mandarina, em 19.02.12

Somos jovens, somos estudantes e apregoamos a toda a hora que não somos racistas, temos ideia de que ser racista é feio, é discriminar o outro, é apontar o dedo à sua cultura, cor, e língua. Mas seremos mesmo assim tão tolerantes? Somos jovens e apregoamos que somos open-minded e humanistas sem ideias pré-concebidas. E afinal o que somos na verdade? Jovens de mente aberta mas com um travão quando temos de viver com pessoas de outras culturas, credos e cor. Se bem que a cor, a língua, a religião nos condiciona menos do que possamos imaginar, há outras variáveis que nos afectam e muito, e é nelas que esbarramos. Nunca antes havia pensado muito nisto, nunca antes tinha vivido num sítio com gente de tantos países diferentes, mas a verdade é que se não olhamos aos estereótipos baseados na cor, língua e religião, não sabemos lidar com a diferença de cheiros (pele e comida), a diferença de olhares (desconfiados, de lado), a diferença das abordagens (directas e selvagens), a diferença das maneiras (a alto e bom som). Não sabemos lidar, quando muito toleramos, e vamos apregoando, eu não sou racista, mas eles são diferentes.

 

Aqui começa a segregação. Brancos de um lado, pretos no outro, muçulmanos ali, asiáticos acolá. Convivemos, coabitamos o mesmo espaço mas não nos misturamos, estranhamo-nos, até nos podemos cumprimentar mas não nos misturamos. Duas residências de saladas russas culturais e uma linha divisória subjacente no formato de olhos, na estranheza da língua, na estranheza dos modos, na estranheza da cor e cheiro. Uma linha divisória a adivinhar que somos todos tolerantes, mas somos, afinal, diferentes. E esbarramos, ainda que não queiramos admitir, nessas diferenças.

 

Não é racismo, julgamos nós, mas todos os dias esbarramos na diferença.

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Bate-me que eu gosto

por mandarina, em 14.02.12

Visto que hoje é dia dos valentins, dia dos casalinhos se lembrarem que são casalinhos e fazerem o que não tem tempo ou imaginação para fazer nos restantes 364 dias do ano aqui fica mais uma curiosidade cultural que vos fará decerto as delícias.

Não inventei nada, estou só a citar uma amiga que tinha uma boa relação com o patrão que lhe contou isto, e meus amigos, isto vindo da boca de um homem e ainda mais chinês é uma revelação senão espantosa, veridica.

 

Sabem aquele ditado português quanto mais me bates mais eu gosto de ti, pois então, aqui aplica-se também quanto mais me bates mais eu sei que gostas de mim. Passo a explicar. Sempre me havia interrogado porque via várias vezes episódios de verdadeiras tareias na rua. E o caso era, um casalinho, menina e menino aparentemente namorados, casados ou enrolados, em que ela num exercício de raiva ou ira (pensava eu) lhe batia a ele, estalos daqueles de deixar marca durante um belo par de dias, para ser tareia completa só faltava ser ao soco. Vários estalos dados com uma força incrível e ele não ripostava nem sequer reagia, queixava-se assim de mansinho, no máximo defendia-se com as mãos sobre a cara enquanto ela continuava a dar-lhe forte e feio. Eu, que nunca associara violência desta a amor, ficava muito espantada com este tipo de circo na rua, e tendo visto isto várias vezes sempre me intrigara o que raio se passa entre os casais chineses. Pois meus amigos, soube há pouco tempo da verdadeira significância da coisa, toda esta violência...é AMOR!!!

 

Sim, devem estar um pouco confusos, eu também não queria bem crer nisto, escancarei-me a rir com esta curiosidade. Mas, ao que parece, segundo este chinês, patrão da minha colega, moço aparentemente muito respeitável, diz que se a namorada chinesa lhe bater isso significa que o ama, e que a intensidade com que lhe bate significa o grau do amor que sente por ele. Ou seja, se lhe der uma sova é amor profundo. Também é importante que este exercício seja presenciado por várias pessoas, daí, eu ter assistido a estes episódios na rua, em cafés, em autocarros. Ao que parece, eles, os homens chineses, sabem que uma mulher os ama se ela lhe bater com alguma frequência e, especialmente, se lhe bater com convicção.

 

Giro, giro era esta moda pegar em Portugal, não???

Hoje é bom dia para mostrarem ao vosso amado o quanto o amam (ao estalo)!!!

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por mandarina, em 13.02.12

Pois estamos sempre a aprender não é minha gente!? Esta curiosidade é dirigida aos amantes de chá, mas chá de saquetas, porque o verdadeiro amante de chá saberá que chá de verdade não vem em saquetas, né!? Então isto já todos nós sabemos, ou deveríamos vá, mas aqui a menina nesta curta viagem que fez visitou uma plantação de chá, mais exactamente uns milhares de héctares de plantação de chá e espantem-se como eu me espantei com a informação que o guia nos deu. Uma saqueta de chá tem apenas e somente 3% de chá, mas o pior vem depois, estas saquetas são feitas com o lixo, sim leram bem, lixo ou resíduos como o queiram chamar que deriva do processo do verdadeiro chá. Ou seja, além de, as saquetas só conterem 3% chá, o chá que bebemos todos contentes na Europa é feito a partir do lixo que sobra do verdadeiro chá de folhas.

E o guia, que se achava um bonzão, diz isto com cara de gozo visto que o grupo era maioritariamente composto por europeus otários, como eu! Enfim, estamos sempre a aprender.

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CNY - Ano do Dragão

por mandarina, em 27.01.12

Dizem os nossos queridos amigos chineses que o ano do Dragão é ano de extremos e de picos, 2012, será, segundo eles, um ano de marés de sorte e de caos, coisas muito boas mas também um ano de calamidades. Também se não fosse assim não seria este o ano em que acaba o mundo. Dia 20 de Dezembro, até lá ainda há muito que viver, temos o fim deste inverno, Primavera (que adoro) seguindo-se o Verão, e ainda antes do mundo acabar teremos tempo para mais um Outono e mais um pedacinho de Inverno. Dá para tudo até ao fim do mundo. Ainda no outro dia, no gozo claro, comentava com a R. que ainda dá para engravidar e ter o puto {deus credo} era só a título de exemplo, note-se. Exemplo mais parvo também...

 

Bom mas ia eu a dizer, sabes que vives na China quando toda a gente sente que realmente passou duas vezes o ano, e sente, inclusive, a emoção na noite do ano novo chinês e abraça toda a gente e manda mensagem a desejar bom ano do Dragão, felicidade, dinheiro, sorte, etcs tal e qual como se faz de dia 31 de Dezembro para dia 1 de Janeiro. Pois é, até nisto nos sinto chineses, vivemos mesmo esta passagem de ano, e este ano meus amigos, foi sensacional, fui com a maltinha, que tão gentilmente nos acolheu em Shanghai, lançar uns belos foguetes e fogos de artifcio.

 

Nunca antes tinha estado tão próximo de uma cena de guerra, ou o mais parecido a isso, era explosões a menos de 5 metros de mim, era gente a gritar de pavor e medo, eu uma delas, odeio foguetes, mas até neste momento me esqueci disto e gostei, vibrei mesmo com aquilo. O nosso grupo estava apetrechado de explosivos {fogo de artificio}que, pronto, não era do melhor material mas foi um espectáculo da mesma maneira.

 

Pior ainda foi os pedacinhos que nos vieram parar em cima, que aquele material de tão espectacular que era não rebentava para o ar, rebentava para os lados e nós estavámos bem afastados e, mesmo assim, íamos sendo atingidos com pedaços daquilo. Mas adorei, a cidade toda parecia palco de uma guerra civil, tudo a explodir em simultâneo, explosões e mais explosões, e muita cor nos céus de Shanghai, lindo!

 

Deixo-vos uma amostra do que foi, mas aquilo só vivido:

 

 
p.s pareciamos uns putos excitados a ver aquilo tudo a explodir, literalmente a bombar. Bombástico.

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Um ano depois

por mandarina, em 16.01.12

Um ano! Um ano! Já lá vai um ano, desde que cheguei à China, não a esta China, a uma China bem diferente, uma China cosmopolita, Shanghai! E que belos 6 meses que aí passei, esquecendo as coisas menos boas claro, que também as houve como é normal!

Não morro de saudades de Shanghai, isso é certo, tenho saudades dos momentos e das pessoas que faziam parte do meu dia-a-dia de então. Saudadinhas da Amélinha, da Maria e de algum outro pessoal de trabalho, tenho saudades de poder estar sempre que quisesse com a chinesa mais internacional que conheci na vida, a minha amiga Efang. Saudades da Joana e da Rita, foram embora, uma voltou por pouco tempo, a outra voltará em breve, espero que a China que encontrar a trate bem. No geral, tenho saudades do nosso grupo de Shanghai, das nossas festas, dos nossos momentos de pura estupidez, das noites passadas entre este e o outro bar, dos dias passados numa correria pelas ruas desta cidade espantosa, da descoberta de mais um spot, um novo restaurante, um novo café, um novo lugar para visitar, um parque, uma loja. Saudades das nossas jantaradas em casas uns dos outros, das festas temáticas (chapéu, traje chinês, entre outras). Saudades do vinho bom que aí se bebia, das after-parties passadas a comer McDonalds, dos nossos jantares em casa uns dos outros, das desastrosas escolhas de take-away que fazíamos, dos nossos momentos de gossip e de corte e costura. Da desarrumação das nossas vidas, dos nossos romances de fim-de-semana, das nossas bocas descaradas (mais vossas, meninas), dos filmes que fazíamos, da facilidade em conhecer pessoal novo, daqueles que nos visitaram por uns dias, umas semanas, uns tempos e logo deixavam saudades.

 

Gostei deste período, nem tudo foram rosas, também me lembro do dia em que cheguei (16 de Jan.) sozinha, perdida, muito a medo, e terrivelmente triste e desamparada, lembro-me de não ter encontrado nos outros o apoio que precisava, de ter feito e passado muito tempo no meu canto, mea culpa, confesso. Os outros estavam já ali, mas a estranheza é ignorância pura. Houve outras coisas que não gostei, mas que agora não interessam absolutamente nada.

 

Quando voltei em finais de Agosto senti que aquela cidade não mais me pertencia, ao meu universo, senti-a estranha, eu com ela e ela comigo. Chorei, chorei sem parar, por mim, porque a estranheza é ignorância pura e o medo do desconhecido voltou, uma vez mais, para se apoderar de mim. Pensava que ia sofrer por mudar de cidade, de amigos, e deixar tudo ali, pra trás e, por isso, chorava. Mais uma vez a vida surpreendeu-me pela positiva mas não vou mentir, uma tamanha tristeza apoderou-se de mim nas primeiras semanas em Wuhan. Mas acabou por evaporar-se.

 

Wuhan. Quis o destino que aqui viesse a encontrar uma pessoa, hoje uma grande amiga, pronta a receber-me de braços abertos, uma pessoa que estranhei muito ao inicio, e que até me perguntei, "como podemos dar-nos bem sendo tão diferentes uma da outra?". Primeira impressão errada, já que o tempo veio provar que, também, por causa dela me sinto aqui como em casa, ao bom gosto português! Outras pessoas conheci que adoro, gosto imenso da minha turma, acho que encaixam todos bem, e não há ninguém da turma que desgoste, em geral, gosto do grupo em si. E gosto do meu trabalho enquanto professora de inglês, tenho aprendido muito. Aqui encontrei outro ritmo, uma outra vida, que considero muito mais significante em valor da que levava em Shanghai. Shanghai foram 6 de meses de férias e entretenimento, aqui, até agora, foram 6 meses de vida a sério, trabalho e estudo. (Especial agradecimento ao governo chinês por patrocinar o meu ano de estudos).

 

E assim foi, Shanghai deixou saudades, mas não o suficiente para deixar um insuportável buraco no peito.

Wuhan até agora, a cidade vá, ainda não me conquistou de maneira alguma, mas vale pela gente simpática e grande miscelânea de nacionalidades que praqui vai.

Wuhan, mais 6 meses, eles que venham daí (agora férias) que já, quase, que me sinto pronta para eles.

 

Ao fim deste ano de vida na China haveria tanto para contar, mas tanto, que, por agora, só me apraz dizer: 谢谢中国 (obrigada China), por me teres recebido tão bem e, por teres feito deste último ano um ano de crescimento e de enriquecimento pessoal.

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Só no reino do meio

por mandarina, em 07.01.12

Interrompo o período de estudo (ou tentativa) para vos vir contar mais uma pérola do Oriente, é que há coisas que só acontecem aqui debaixo do nosso nariz. Esta é uma história verídica apesar de quase surreal, e foi-me contada pela minha colega de turma cujo namorado tem um trabalho muito peculiar.  

 

Ele do alto do seu metro e oitenta e muitos, louro, olhos azuis, bem constituído, um rapagão de encher os olhos vá. Assim bem ao estilo europeu mas facilmente confundido com o estilo americano. Para o chinês é tipo do género, o mesmo. Mas adiante, então o trabalho deste simpatiquissimo rapaz é nada mais nada menos que fazer-se passar por representante de uma empresa americana numa espécie de esquema faz-de-conta. Ou seja, o rapaz efectivamente não trabalha para a tal empresa mas este é um trabalho de faz-de-conta que sim e é nessa condição que vai em viagens de trabalho, reuniões, feiras e congressos e outros que tal para fictionalmente representar a tal empresa para a qual não trabalha. Digamos que ele foi contratado por esta empresa americana que precisa de ter alguém no terreno para posar de figurino nestas fantochadas chinesas. Eh lá empregos do catano.

 

Quando perguntei a esta minha colega "tão o que faz mesmo o teu namorado" ela ficou com aquela expressão, como é que eu vou explicar agora a coisa, e depois lá disse "ah ele tem o chamado emprego de waiguoren (estrangeiro)" ou seja, serve de figurino para chinês burro ver e só tem de dizer sim, não, concordo, não concordo segundo umas coisas que lhe dizem mas nem ele sabe do negócio nem tem que saber porque não é mesmo o emprego dele. Além disso, vejam só, o rapaz que sabe falar bem chinês, tem de fingir que não percebe patavina de chinês. Ou seja, tem de fingir ser um americano de gema. Eh Eh Eh isto só na China, minha gente, só na China.

 

Ele é que tem sorte, não tem de se chatear, é muito bem pago, às custas desta fantochada farta-se de viajar, frequentar hotéis de 5 estrelas, com tudo pago, com um intérprete de chinês para inglês (faz parte do plano) e lá anda ele a ganhar bem sem fazer literalmente um cú e sem chatices algumas.

Ah perfeito, não se arranja nada do género para mim? pois não me parece, negócios na China é coisa de homens.

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O grande Dragão

por mandarina, em 03.01.12

Depois de ler este artigo e, constatar que tudo isto é verdade, a China está a ponto de tornar-se a dona do mundo, será ela a ditar as regras do jogo e a senão mudá-las, a geri-las à sua maneira. Não é preciso perceber muito de política e mercados financeiros para saber que a China está com a faca e o queijo na mão. Bom sinal ou não? A seu tempo o descobriremos, mas uma coisa é certa, os chineses têm garra, perseverança, determinação. E mais, tem muita ambição. Desde o jardim de infância, sim as criancinhas de 3 anos dos papás ávidos pelo conhecimento da língua universal (inglês salvo seja) põem as criancinhas aos fins de semana de manhã a aprender 3 horas seguidas de inglês quando se sabe que uma criança tão pequena nunca se consegue concentrar mais de meia hora seguida. Além disso, os adolescentes e jovens não tem vida social por aí além, por isso, não se importam muito de sacrificar todo o tempo-livre no seu enriquecimento enquanto cidadãos e a levar avante o crescimento do país. São ávidos por riqueza, aqui não há religião que os cegue, nem espiritualismo que lhes valha, trabalham muito, esforçam-se mais ainda, podem até dar a sensação que trabalham como um rebanho mas é mais cada um por si. É isso que vejo todos os dias. Cada qual por si, e numa sociedade em que ser o mais forte é dificil, a competição está-lhes no sangue e vivem para vencer, ainda que muitos para sobreviver. É uma sociedade que vive com os olhos postos no futuro, naquele em que eles deixarão de ser a fábrica do mundo para passarem a ser os patrões do mundo e das grandes empresas do mundo.

 

Muitos dizem que esta China com a mania das grandezas é uma China rude, mas eu diria antes, é uma China que quer provar que não deve nada a ninguém e usa-se do seu poder económico para fazer valer a sua vontade perante uma Europa cansada, uma América amedrontada, e o resto do mundo meio perdido entre guerras e governos fracassados. A China perante este cenário avança certeira, e não tenho a minima dúvida que falta tão pouco para o mundo lhe pertencer e lhe obedecer. Eles continuam dispostos a pagar o preço que for necessário.

 

E depois, com que olhos eles nos vêem? Vejo nos chineses um misto de curiosidade e de desdém perante os estrangeiros, alguns são mesmo arrogantes, e vêm esta invasão de estrangeiros com olhos pouco amigáveis, até mesmo com um trejeito de troça, como quem diz "pois com o barco a afundar na Europa vêem na grande Nação a tábua de salvamento". Aos olhos deles, podemos ainda não ser uma ameaça (nós os expatriados), a maioria jovens com poucas oportunidades de emprego na Europa ou então empresários que vêm aqui vender os seus produtos, mas que, no geral, sempre que um chinês toma conhecimento dos muitos estudantes estrangeiros a aprender a sua língua fica com um brilhozinho nos olhos, um brilho de malicia, diria até, como que, suspeitando que nós precisamos deles mais do que eles precisam de nós. Ainda que não saibamos se é mesmo assim, uma vez que o chinês nunca será uma língua acessível e usada universalmente como o inglês o é.

 

Dinheiro, o deus magnânimo dos chineses, juro que, ultimamente, só vejo nos chineses o ímpeto de comprar, comprar sem parar, como se todos tivessem sido infectados com o vírus da compra compulsiva e desenfreada. Cifrões a passar pelos olhinhos deles a mil a hora, comprar é a palavra de ordem, o resto pouco importa, a compra traz felicidade, juro que é o que sinto no dia-a-dia, principalmente nestas épocas mais festivas. Comprar para satisfazer os seus ímpetos de consumidor que pode, e que ganha face porque se compra mais é porque agora pode mais, e numa sociedade em que mostrar que se tem e que se pode é tudo, então, compra-se para se ganhar mais face perante os outros.

 

Assusta-me esta necessidade compulsiva de show off de poder a toda a hora, seja no supermercado, nos centros comerciais sempre apinhados, seja na imitação do estilo europeu ou americano, seja na ostentação de luxo e poder, seja no desperdício à mesa de um qualquer restaurante, assusta-me todo este "demasiado" por ser uma ostentação agressiva e, ainda mais, porque o gap entre ricos e pobres é tão visível e está a nú nesta China tão desigual.

 

É a China do blim-blim. O pior é que nem tudo o que reluz é ouro.

Bom ano do Dragão. Bom ano na China (país) ou sob os tentáculos dela (resto do mundo).

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Segurança alimentar na China?? Ora aí está um conceito desconhecido por estas bandas, eles bem querem tentar remediar o problema mas ele continua lá, e ninguém se interessa muito por ele. A Rita e N pessoas dizem constantemente: "A ASAE aqui tinha muito que fazer" eu sou mais da opinião " A ASAE aqui matava-se". Contra o império chinês é, ou vais na onda ou acabas a passar fome e a reclamar a cada 2 segundos. Reclamar é uma bela hipótese, é pois é, mas dá mais dores de cabeça que encontra soluções. Nem os chineses que são chineses e falam chinês conseguem reclamar e ver a reclamação acatada. Isto no que diz respeito a muita coisa, mas comida e higiene e segurança alimentar são conceitos que não fazem parte do léxico desta Nação.

Ontem fomos ao sushi, restaurante todo XPTO, num centro comercial ainda mais XPTO ainda. Sítio sempre à pinha, coisa para ter de reservar sempre que apetece ir, ou então aceitar esperar em filas malucas. Qualidade da comida, lá está, do melhor que se espera, não é estupidamente caro, mas segundo os standards chineses de Wuhan, pende mais para caro do que para o barato. Bom, "nosso" sito de eleição até ontem.

Problema: Sushi com peixe crú não fresco (segundo quem cheirou, cheirava mal). Maravilha, peixe crú e estragado! Mas lá está até nestes sitios pode acontecer, logo perante isto deve-se fazer o quê? Reclamar, como é óbvio. Pois foi o que se fez, a gerente achou que a melhor maneira de remediar a situação (sim, na China os problemas não se resolvem, remediam-se) era trazer mais sushi, desta vez com aspecto fresco.

 

Conclusão: na cabeça dela achou por bem, mesmo depois de termos reclamado, trazer novo sushi, do género "tomem lá e estejam é caladinhos" e ainda para mais como suborno, traz fruta. Mas melhor ainda é ter-nos feito pagar o sushi estragado. Excelente politica hein, "tomem lá comida estragada e não estejam à espera que não vos cobre por ela, mesmo depois de eu, enquanto gerente, tenha reconhecido que ela estava estragada". Que gerência exemplar, às custas destas e doutras é que a ASAE iria levar as mãos à cabeça e desatavam todos a fugir. Se não os consegues vencer, junta-te a eles, diriam eles.

 

Eu só posso lamentar a perda, a deles claro porque se a qualidade não vem em primeiro lugar num sitio XPTO prefiro recorrer a sitios inferiores onde sei que a comida sabe melhor, mesmo não sabendo como é confeccionada, porque tudo bem que adore comer peixe crú, agora peixe crú estragado, acho que passo bem sem ele!!!

 

E assim vai a China a tentar imitar os standards internacionais, imitam o estilo, a comida, o bom gosto e requinte e depois esquecem-se de imitar o mais importante: a segurança!!!

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Intransigência chinesa

por mandarina, em 10.11.11

Esta é uma das barreiras culturais em que mais esbarro e a que me tira mais do sério. Os chineses, e agora é com pena que o vou dizer, mas, em geral, não sabem pensar por si próprios, sabem seguir regras e tudo o que for pôr em causa essas regras é uma dor de cabeça para eles.

Fico estupefacta como a maior parte deles não sabe agir de outro modo que não o modo que as tais regras ditam, e esta forma de ser tira-me do sério, a mim e à maior parte dos que têm de levar com estas regras.

Será que nunca ensinaram que as regras só são boas e perfeitas até ao momento em que dão problemas, e que, quando este momento surge signigica que a regra está a falhar e, que, por isso, nessa altura é bom deixar a regra de lado e pensarem pelas suas cabecinhas uma vez na vida. Percebo que pensar por si custe, e andar em rebanho seja mais fácil e que seja à maneira chinesa porque o individuo não tem querer ou não querer, tem é de obedecer e não provocar confusão porque eles devem pensar  que, no minino, se metade de 1.3 biliões de pessoas começar a questionar cada regra idiota que seguem, então aí é o fim do mundo.

Pois bem, e como lida um estrangeiro com estas intransigências todas?  tá visto que não lida bem , e o que fazemos ou tentamos fazer, como na nossa cultura nos ensinaram, ordeiramente, é questionar, revoltarmo-nos e bater o pé e tentar provar que há outras maneiras de ver e resolver o problema, muitas vezes causado pela obediência das esúpidas regras que eles inventaram.  Mas aí então é que surge o problema, eles não sabem lidar com mais do que uma opção, especialmente se essa não for contemplada na regra.

 

Incompetente e preguiçoso, é como eu classifico o staff chinês, para além disso têm medo, têm preguiça de questionar, e lavam, sempre que podem, as mãos, afinal nem é o trabalho deles que é exigido que façam bem, não, o problema é de quem os vem incomodar e lhes quer arranjar problemas. A sério não há pachorra para tanto comodismo e burrice. A sorte deles é que eu com o meu chinês primitivo não os posso incomodar muito nem não arredar pé até que me resolvam o problema, senão coitados iam arrancar os cabelos com as minhas reclamações.

 

Já não é a primeira vez que me esbarro com este obstáculo e passe o tempo que passar vou sempre esbarrar nele por melhor ou pior que fale chinês, normalmente só reajem quando nos mostramos mesmo furiosos, e aí pensam "é melhor acalmar o laowai (forma como tratam um estrangeiro regra geral) e tentar resolver senão ainda me arrisco a arranjar problemas sérios e até mesmo perder o emprego". Se mesmo a fúria não resultar, podem sempre ameaçar chamar a polícia para tentar resolver o problema, já vi esta estratégia funcionar.

 

Por mais que tente ser benevolente e ter em conta que eles não cresceram numa sociedade que os ensine a criticar, a pensar por si próprios, é com angústia que lido com estas situações e que penso que triste que é não ter a capacidade de julgar até que ponto a regra faz sentido e quando deixa simplesmente de fazer. Mas é assim que por aqui funciona, e salvo rara excepção, todos segue as benditas regras, as sagradas regras criadas por uma elite e que ir contra o pensamento da elite é impensável e sobrehumano já que, os que mandam, mandam, e ponto final. O que fica para além disso o raciocinio não alcança.

 

 

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A China, como eu a vejo!!!

por mandarina, em 25.10.11

Longe de mim querer entrar em polémicas, defender esta ou a outra parte, cada um tem o direito à sua opinião, não pretendo sequer ser politicamente correcta, nos dias de hoje, isso de "politicamente" correcta quer dizer, a meu ver lá está, tão pouco.

Este é um post especialmente sobre mim, e não sobre como o mundo vê ou sente que a China é! E eu não estou aqui, neste post, a defender essa "China" que foi tomada pela parte, os 1,3 biliões tomados por uma (pequena) parte da sociedade.

Vivo aqui, há quase um ano, vivo aqui todos os dias, respiro o ar poluído que eles também respiram, estou aqui não contra a minha vontade, estou aqui porque quero estar. Sei em que país vivo, tenho consciência das atrocidades que se cometem neste país a torto e a direito, vejo os mendigos, vejo pobreza nas ruas todos os dias, vejo a indiferença dos que passam estampada nas suas caras, sinto essa indiferença, mas não me julgo melhor que eles, não me julgo pior nem melhor, não faço nada para mudar este ou outro país, vivo nele mas não actuo nele.

Se me tornei insensível, pois, mentira, sinto-me exposta a situações que nunca me vi confrontada em Portugal, se as existem em Portugal, não sei, existiram outras, talvez não tão flagrantes como as da menina que morre atropelada, mas nem, por isso, menos dolorosas ou insignificantes. Não preciso ir muito longe, não generalizo, mas a forma, muitas vezes, como se tratam em Portugal os mais velhos indigna-me porque sou neta e não consigo deixar de pensar que se não fossem os meus avós eu não faria parte deste mundo nem seria a pessoa que sou hoje. Não generalizo, não acontece em todas as casas, mas tomemos o exemplo das notícias da morte silenciosa de muitos idosos deixados ao abandono, no mais profundo e doloroso esquecimento. Não acuso ninguém, mas lá está, sou neta e tenho tanto orgulho de amar todos os dias os meus avós e de sempre que os tenho de deixar (sem mim por perto) ficar com o maior dos pesos na alma por os saber mais "desamparados" do conforto que lhes dou e do contacto diário que tanto prezo.

Sei em que país vivo, sei que este país sucumbiu e tem tendência a sucumbir cada vez mais à ganância e à impiedade e sei-os (a muitos) capazes de passar por cima de quem preciso for para chegar lá, ao tão afamado sucesso, ou simplesmente garantir a sua sobrevivência. E, sim, esta falta de sensibilidade e de compaixão deles é chocante, dilacera o coração de qualquer pessoa e, especialmente, de qualquer mãe que assista a estas imagens, não sei o que aquela mãe sentiu, se teve verdadeira culpa ou se foi negligente por alguns minutos mas, ainda assim, era a mãe desta menina e só ela pode viver com o peso desta morte.

Não tento com isto justificar o que se passou ali, não há justificação possível para tal crueldade e frieza, mas, a este ponto, depois de conviver com eles diariamente, consigo dizer que os chineses não são aquelas pessoas que se vêem ali, ou pelo menos, eu conheço muitos que não são nem de perto nem de longe comparáveis aos daquele vídeo. Não percebo o que se passa ali com aquela gente, quase parece mentira, mas é realidade, por trás pode estar medo, pode estar o medo de arcar com as consequências, e neste caso, porque o governo não suporta quaisquer despesas com a assistência ou saúde pública, estaria em causa arcar com as despesas do tratamento e responsabilização pelo tratamento da menina, daí a cobardia de muitos, ainda assim não é justificação, nem numa sociedade que privilegia o colectivo e esquece o indivíduo.

Agora, uma coisa é certa, os valores deles são outros, diferentes dos nossos, mas não posso deixar de realçar que os chineses respeitam quase de maneira sagrada os mais velhos,  e, por isso, não são os jovens que tem a última palavra ou a mais forte, a sabedoria pertence aos mais velhos, daí que na sociedade eles assumam o lugar de destaque, sejam ouvidos, bem tratados e respeitados por todos (pela grande maioria).

Vivo numa cultura diferente, esbarro, ainda hoje, muitas vezes com imensos obstáculos culturais, e nem sempre é fácil perceber, mas nunca me foi difícil respeitar, por isso, mesmo que não entenda esforço-me ao máximo para não fazer valer os meus "valores" que muitas vezes só fazem sentido e só se enquadram nos standards ocidentais.

 

Teria páginas e páginas a escrever sobre este país que, devo confessar, tão bem me acolheu, aliás sairía daqui uma longa dissertação, não acho que seja aqui que o vou fazer. A minha opinião é parcial, está claro, e se ofende ou choca alguém compreendo, tal como compreendi a opinião de muita gente que comentou e criticou os chineses no meu post "Indiferença Humana". Agora se tive a capacidade, ainda que não concordando muitas vezes, de compreender as críticas também certamente espero que percebam o meu "ponto de vista".

 

Nenhuma sociedade é, no seu todo, perfeita, mas é sempre mais fácil julgar as outras, ao ter que julgar a "nossa" própria! (Uma vez mais é só a minha opinião)!

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