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Bater perna*

por mandarina, em 28.05.12

Se há coisa que sinto falta é disso mesmo, bater perna, sair por aí pela cidade e andar, andar, andar até me fartar. Mas como fazer isto nesta cidade é o equivalente a levar com toda a poluição em cima, a do trânsito, a das pessoas, a do ruído, e ainda correr o risco de ser atropelada por um maluco (e eles são aos milhões o que aumenta as probabilidades disso acontecer) ou ser esmagada entre alguns dos 9 milhões que saem todos à rua, às vezes tenho a sensação que combinam sair sempre todos ao mesmo tempo, e a sensação de claustrofobia é gigante. Sinto-me impotente perante tanta gente, e ter de me desviar a cada dois segundos quer de pessoas, quer de motos e bicicletas que, inclusive, não respeitam os passeios dos peões e andam prali a apitar e a abrir caminho "na desbunda" como se nós, os peões, é que, feitos estúpidos, lhes andássemos a obstruir o caminho.

Isto aliado à inexistência de espaços verdes, espaços sossegados, espaços sem gente, espaços prazenteiros de estar, ir relaxar sossegadamente, respirar ar puro, parar por um bocado, esquecer a loucura da cidade, esquecer a loucura que é a China, e contemplar só e apenas a natureza e tirar prazer de um momento de calma é tipo uma miragem no deserto, um oásis por construir.

 

A Rita não me percebe, eu que me queixo a toda a hora da loucura e disparate que é esta cidade, a sensação de claustrofobia que sinto por viver nela, a sensação que tenho de me sentir a sufocar quando tento sair da Universidade para ir por aí, nem que seja, só ali à rua abaixo, ao supermercado mais próximo, ao shopping do lado. Ela não percebe e diz que é assim por toda a China, e eu até percebo que ela não perceba, porque nunca viveu noutra China, e de certa maneira, invejo-a, porque lá está, pelo menos não tem termo de comparação.

 

Eu tive a sorte ou o azar de viver em Shanghai, uma cidade gigante sim, poluída também, barulhenta e com trânsito infernal, sim tudo isso. Mas nunca antes, enquanto lá vivi, tive a sensação de ser esmagada assim, de me sentir sufocar, de me ver entalada entre as multidões. E agora que penso nisso, que saudades, quando palmilhava a cidade por onde me apetecesse, sempre com vontade de andar, de ir, de bater perna, de me perder nela, de ir mais longe, das ruas em que se podia andar, do espaço que nunca faltava, das noites de grandes caminhadas, dos parques, dos cafés, dos bares, dos quartiers, dos recantos cheios de encanto e, pasmem-se, do silêncio e calmaria.

 

Uma cidade que, além de oferecer espaços maravilhosos, oferecia também isso, a possibilidade de desfrutar de uns bons momentos em paz, com espaço, com calma, com tempo. Saudades desses caminhadas, dessa cidade, dessas noites que batia perna sem nunca parecer que isso me deixava cansada, que deixava mas de um modo bom, que deixava o corpo pesado, mas a cabeça leve.

 

É muito por causa disto que eu odeio esta cidade, porque andar nela me cansa, me envenena a cabeça e o corpo. É a vida em Wuhan no seu melhor.

 

*correcção: bater perna e não pé, bater pé é mesmo aqui, e não poucas vezes.

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