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Sobriedade

por mandarina, em 15.02.12

Vivemos sem que ninguém nos indique que caminho devemos percorrer para que sejamos sempre felizes, sempre seguros, sempre em paz. Ninguém nos sabe indicar o caminho, nem pais, nem irmãos, nem amigos, avançamos sozinhos por nossa conta e risco.

Às vezes pergunto-me o que me fez vir aqui parar, e mais do que isso, como vim aqui parar, que caminhos segui e que riscos corri, quem deixei para trás, que caminhos ignorei, que caminhos me esperavam noutro sentido. Decerto ninguém saberá, eu tampoco. Hoje estou aqui pelas minhas próprias convicções e acções. Hoje vejo-me a questionar-me onde quero estar amanhã, com a certeza que o hoje é aqui e em mais lado algum, mas e o amanhã?

Penso no que me fez vir aqui parar, não falo no espaço físico, mas no todo, onde quero estar, como quero estar, quem quero ser amanhã. São estas as decisões que nos moldam a vida, para o bem ou para o mal.

Há um ano atrás com mais ou menos certezas sabia que não tinha muitas hipóteses, pensava eu, na minha pequenez e com os horizontes limitados. Hoje com menos medo, mais ambição e muito mais insatisfação, sinto-me um barco à deriva sem saber para onde apontar o leme.

Hoje perguntaram-me "quais são os teus planos?", e eu "continuar a estudar, mais um ano" com menos convicção de que suponha porque hoje não sei se é verdadeiramente isso que quero. Adiar começar a viver outra vez, quando a minha vontade é essa, começar a viver, começar a viver e ser eu a comandar o meu destino. Deixar de ser nómada e estar condicionada aos desmandos de quem me dá uma bolsa para estudar e viver. Começar a viver no sentido de começar a construir, construir o meu percurso profissional, começar vida de adulta, deixar de ser estudante e pobre, deixar de viver em residências, deixar de resumir o meu dia a ir às aulas, sentar e ouvir, e passar o resto do dia a fazer tpcs ou aplicar o que se deu nas aulas, e viver em função de campainhas com toques ridículos, com professores maçadores, em função de exames que me deixam os nervos em franja.

 

Mas a vida de estudante é, também isso mesmo, uma recusa do dever, uma responsabilidade adiada em contas por pagar, em encargos e impostos, e mais que tal. Uma adiada vontade de ser adulto para ser sempre aquele que estuda e que leva a vida mais fácil, mais leve e descomplicada.

A dificuldade é saber conciliar as vontades, as minhas, a vontade de ser dona do meu nariz e não viver uma vida de mentirinha uma vez que não tens casa, não tens dinheiro e não tens pernas para andar além do que podes alcançar.

 

Apetece-me um pouco dos dois mundos, mas apetece-me mais crescer e assentar, construir e explorar, e pertencer a alguém e a algum sítio de uma forma mais segura, mais madura, mais adulta, o que enquanto estudante é uma realidade senão ilusória, quase impraticável.

 

De tudo o mais que preciso agora é de sobriedade para ponderar ambos os lados da balança e descobrir para que lado ela começa a pesar mais.

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4 comentários

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Ana a 15.02.2012

identifico me muito com o que dizes aqui...E eu apesar de já ser dona do meu nariz, como dizes, ainda me sinto a deriva... também me pergunto muita vez como cheguei aqui, porque estou aqui, e porque deixei tanto para trás . . E onde quero estar amanha? também não o sei! sei que não quero estar aqui, porque aqui não pertenço . A casa, não sei como voltar, porque lá , sempre pertencerei (mesmo que ja nao o sinta assim), mas agora também pertenço . a alguém mais, mas ainda assim, a lugar nenhum!

Sempre entre o que deixamos para trás . e o que quer que seja que ainda não sabemos querer...sem duvida uma posição muito difícil , viver dividida, entre o mundo em que crescemos e a que já não pertencemos, e um mundo que se nos apresenta, diante de nos, a que não sabemos como pertencer! oh dear ...

love,

Ana
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mandarina a 18.02.2012

Não posso dizer que fico feliz de saber q também tu te sentes assim dividida, mas uma coisa é certa, quero acreditar que a cada dia que passa nos aproximamos mais do nosso lugar no mundo. É com essa esperança/certeza que te asseguro que iremos, mais tarde ou mais cedo, encontrá-lo e ser muito felizes :)
bj amiga linda
adoro saber-te desse lado e adoro ouvir tudo o que tens para dizer
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Rita a 16.02.2012

Quando vim para aqui fiquei com receio de "parar", digamos assim. Parar porque ia deixar de trabalhar para estudar. Fui também influenciada pelos pais. A maior parte das outras pessoas (familiares, amigos e antigos colegas de trabalho) apoiou-me: por que não tentar estudar de novo, ainda por cima num país tão diferente? Ter estado 3 anos parada... Quer dizer, não: fiz a Pós-Graduação e tirei o curso de Espanhol. E, claro, tinha as formações no trabalho mas... Não é a mesma coisa.

Antes de vir, porém, também não tinha grandes planos: cumpria a rotina do trabalho, ia enviando o CV, não pensava em viver com o meu namorado da altura porque nos acomodámos à situação que tinhamos...

Acho que fizeste bem em vir para aqui. E tudo está a acontecer na altura devida. Verás que, quer concorras para uma nova bolsa quer não, tudo virá no tempo certo e tomarás a decisão certa. Ninguém nos pode dizer se será o melhor mas... Enfim, temos de usar a cabeça, o coração e tentar ver o que será p mais adequado com perspectiva de futuro... É difícil... Quem me dera ser mais assertiva, não ter tantas incertezas, também... Juntas, ou não, conseguiremos! :) Seremos felizes com as nossas escolhas a todos os níveis! Os outros conseguem, mais tarde ou mais cedo, nós também!
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Maria Araújo a 16.02.2012


As vossas angústias são tão diferentes das minhas!
No meu tempo havia mais certezas (emprego, estabilidade, casamento, filhos, vida).
Hoje, há tecnologia, oportunidades, inteligência, rapidez, cultura...falta a certeza de  que o que se investiu poderá valer o esforço.
E o ciclo da vida é extremamente veloz e inseguro.
Nem sei mais o que dizer. Apenas, pense que o futuro há-de sorrir.
Beijinho

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