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China profunda

por mandarina, em 26.02.12

Para quem não sabe, eu vivo na China profunda. Uma cidade mesmo no centro da China, com quase tantos habitantes como a população total de Portugal. Uma cidade em desenvolvimento. A maior cidade em que já vivi, é cidade que nunca mais acaba, talvez por ser constituída por outras 3 que de tanto crescerem se fundiram numa para dar origem a Wuhan.

Já várias vezes saí da cidade, e voltei a entrar mas nunca antes me havia chocado tanto voltar como da última vez que isto aconteceu. Foi quando voltei das minhas férias por outra Ásia muito mais civilizada. Uns dizem que quando se vai de férias é normal estranhar quando se volta, outros concordam que é mesmo um choque chegar a um sítio destes seja qual o sítio de partida.

 

Distanciamento. A sangue quente escreveria coisas horrendas sobre Wuhan. No dia em que cheguei fez-me sentir mesmo miserável. Suja, cansada, sem forças, com vontade de desaparecer daqui e nunca mais cá por os pés. Deixar para trás a falta de educação das pessoas, a falta de espaço físico, a falta de sol, a falta de ar puro, a incapacidade de nos movermos facilmente de um lado para o outro, o trânsito caótico, a sujidade das ruas, a sujidade e falta de civismo dos habitantes, o ruído ensurdecedor das suas ruas, as lixeiras a céu aberto, o céu cinzento e poluído, o caos de cada esquina, o cheiro insuportável das ruas e ruelas, o comportamento rude das pessoas, os empurrões, os escarros constantes, o desrespeito pela decência humana e o corte com tudo o que de normal e estético estamos acostumados.

 

A sangue quente escreveria pior, por isso, não escrevi. Ia ser muito mau.

Esta cidade dá-me náuseas, por isso, não tenho por hábito aventurar-me nela muitas vezes.

As suas gentes, que se dividem entre gente rica, ou podre de rica, e gente muito pobre vinda das aldeias mais recônditas da China são o espelho de uma China contemporânea, uma China entre aquilo que quer ser, e que ainda não é. Esta é a verdadeira China, desenganem-se os espertinhos que pensam que Shanghai é China. China é tudo o que saí portas fora de cidades como Shanghai. Shanghai é uma imitação barata de qualquer cidade ocidental. Uma imitação mas que já enche bem as medidas de qualquer um.

 

Há quem defenda que viver num sítio destes é preferível, sim se considerarmos que aqui além de estudar não há muito mais que fazer, e que não há tentações nocturnas nem culturais como em cidades cosmopolitas. Mas desenganem-se se pensam que aqui consegues melhorar o chinês. É mentira, as pessoas desta cidade, quer sejam estudantes ou não, têm uma mentalidade tão fechada que eles não querem falar connosco, os laowais. Nós somos só fonte de curiosidade, somos as aberrações, rara vez um estrangeiro se pode sentir à vontade fora dos limites da universidade, os chineses com os seus olhares percrustradores e irritantes não permitem. É um olhar doentio que choca e fere à vista, e quando não acompanhado por comentários.

 

Aberrações, aqui é o que somos, aberrações que tentam a muito custo comunicar em chinês com esta gente da aldeia. Wuhan = aldeia à escala gigante.

 

Nota: Eu não vivo aqui, sobrevivo. É, óbvio, que não escolhi viver aqui, escolheram por mim. Penas infligidas a quem estuda às custas do governo chinês.

 

 

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...

por mandarina, em 26.02.12

It is one of my sources of happiness never to desire a knowledge of other people's business.

Dolley Madison

 

Um alívio. Uma vontade não imposta de não querer saber da vida dos outros. Um bem-estar que vem dessa atitude. Uma paz de espírito e de consciência. É como se essas pessoas, das quais não temos notícias, nunca tivessem existido de verdade. Sabemos que existiram, mas temos a sensação que deixaram de existir no entretanto. Existem mas não mais para mim.

 

Quando não sabes viver com a felicidade dos outros que te provoca desconforto, mau humor e azia procura não saber das suas vidas, primeiro começa por ser uma imposição, para um dia ser um acção natural. Um grito autêntico de liberdade. Os outros estão aí para ser fonte de bem-estar e não para ser uma expiação dos teus males.

 

As suas vidas não mais me dizem respeito, não há curiosidade, não há inveja, não há ciúme, não há flash news, há antes silêncio e muita paz interior. Eu existo, eles já não, não mais no meu universo. Afinal somos de constelações totalmente opostas. E eu nunca fui de comparações nem de competição.

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Idiotice do dia #8

por mandarina, em 25.02.12

Bendito sejas tu, McDonald's, bendita a hora que alguém inventou o fast-food para nos livrar em boa hora de dores de cabeça que insistem em não ir embora. Não sou de fast-foods mas às vezes é solução santa. Hoje foi, e sem pesos na consciência, que isto só lá ia com uma bose dose de fritos, dose extra de açucar e gordura, gás e cafeína da coca-cola. Há dias complicados. 

 

É o que dá celebrar (em grande) o nascimento do mais novo elemento da família. Mesmo sem saber.

 

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Parabéns

por mandarina, em 25.02.12

Parabéns ao meu maninho e respectiva senhora por terem sido papás ontem.

Vai uma pessoa para os copos sem saber que no outro lado do mundo está alguém do seu sangue a nascer. Uma coisa é certa, fartei-me de fazer ganbeis (brindes) a este nascimento.

Estou ansiosa por conhecer o mais pequeno membro da família. Mais um homenzinho. As meninas não querem nascer nesta família. Só varões.

 

p.s.: Maninho já paravas de me fazer sentir uma velha. Tia pela segunda vez é dose.

 

Votos de muita felicidade & amor

Da Titi A.

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Pensamentos Aleatórios #11

por mandarina, em 24.02.12

"Cresce e aparece"  - ainda foi o melhor conselho que ele me deu. Tenho andado a tratar disso. De todo não por respeito às suas sábias (cof cof) palavras. A vida a isso obriga. "Da escola de guerra da vida: o que não me mata, torna-me mais forte", disse Nietzsche e disse ele muito bem.

 

What doesn't kill us makes us stronger.

Friedrich Nietzsche

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Atalho

por mandarina, em 23.02.12

Hoje, feita chica-esperta, não tivesse eu também sangue tuga, a caminho do hospital para ir buscar o atestado de não, não tenho SIDA nem outras doenças contagiosas*, ai desculpem, o atestado médico, pensei cá para os meus botões "vou atalhar, vou por aqui e chego lá em metade do tempo, tá de chuva e tá, bora lá". Isto para o mais comum dos mortais é um pensamento do mais curriqueiro que existe, mas para mim, que sou só das pessoas mais desorientadas que conheço, é tipo o fim do mundo. Inventei e pois tá claro, perdi-me.

 

Mas como eu, faz parte da mudança que empreendi, me deixei de medos, receios, temores e pânicos quando me perco, pensei cá para mim "não vou voltar atrás, perdi-me agora hei-de dar com a (maldita) saída", ao invés de ter pensado "e pedir ajuda, não?". Também tenho disto, sei que estou errada e na merda mas não peço ajuda logo à primeira. Então convicta de que ia encontrar rápido a saída, lá continuei a andar por mais X tempo e nada, cada vez me via mais perdida, ainda ponderei ir de táxi, mas desisti da ideia porque não sabia como se chamava o hospital e hospitais é o que mais há nesta santa terrinha. E não, também não tinha comigo nem morada nem nome da rua do hospital nem pontos de referência. Mas adiante, acabei por perguntar a uma tipa (africana) que inglês não era com ela, chinês também não, esqueci-me de tentar português, nem me ocorreu. Coitada, ainda sabia menos que eu, se eu lhe tivesse perguntado em que universidade estava tenho cá pra mim que nem me saberia responder. E eu ainda sabia que estava a passear na Universidade aqui ao lado, perdida lá pelo campus. Happy ending: lá encontrei a rua principal e cheguei ao hospital.

 

Perdi-me mas daqui tiro uma lição de vida. Uma boa lição de vida. Muitas vezes temos muita vontade de atalhar, seguir o caminho mais fácil, mais aliciante e mais rápido. Falo na vida, das escolhas que fazemos na vida. Conheço alguém, que respeito muito, que tinha trabalho há alguns anos, que tinha namorado há outros tantos, que tinha o conforto da família, e que tinha o conforto do ambiente em que vivia e que decidiu ousar, largar tudo, e vir para a China estudar. E não, claramente não falo de mim, eu não tinha nada disto quando vim, porque aí não sei se teria eu tido coragem igual.

 

Mas bem, dizia eu, este atalho frustrado serviu-me de inspiração para analisar a minha vida e as minhas decisões do momento. Até há alguns dias atrás ponderei atalhar, lançar-me por aí, mundo fora, sair até da China, e ir para qualquer outro lugar onde fosse ser mais feliz que aqui (ou onde julgava poder ser mais feliz, que isso ninguém me garantia), ponderei isso mas logo vi que não. Não está na hora de seguir atalhos, está na hora de ser responsável e de começar o que aqui vim fazer: estudar mandarim para um dia ser fluente nesta língua. Não quero seguir mais atalhos, mesmo que eles sejam uma espécie de Ovo Kinder com uma surpresa agradável ou nem tanto, quero antes perfilhar um caminho com início, meio e fim para um dia seguir o caminho certo, sabendo que este percurso, sem atalhos, ainda que mais doloroso, menos feliz e mais demorado, no final de contas, a bom porto me levará (tenho muita esperança que assim seja).

 

Agora aos tpcs sem atalhos, e com muito sono e molenguice...avante camarada (a propósito do último livro que li de Jorge Amado "Capitães da Areia" e não como palavra de ordem comunista)

 

*é a única coisinha a que os chineses olham.

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Pensamentos Aleatórios #10

por mandarina, em 23.02.12

Juro que eu não era assim, sarcástica e mordaz enquanto aluna, nos bons velhos tempos (há prai 10 anos atrás) pobrezinha de mim, era daquelas alunas bem comportadinhas que tinha medo do professor até para pedir sff para ir à casa de banho, e um respeito que ia daqui à lua, e que corava a toda a hora, e estudava, ou antes, marrava para os exames como se não houvesse amanhã e nem dormia de tanto nervosismo e ansiedade antes e depois dos exames e que só sossegava quando via que tinha das melhores notas da turma.

 

Hoje dou por mim a ser daquelas que se sentam lá atrás, na última fila, e que, não me ponho a desenhar porque não sei, mas ponho-me a gozar com a professora que fala duma maneira que só dá vontade disso mesmo, gozar. Hoje apeteceu-me mesmo extravazar e juro que houve ali uma altura que pensei que ela, a tonta da prof., me tivesse ouvido a imitá-la. Mas eu não tenho culpa, ela é que fala de uma maneira tão irritante e desagradável que só dá mesmo vontade de gozar. Leiam o seguinte acentuando sempre o final. Níi dóng lê máãããã? Por amor de Deus,  e alguém que fale putonghua (mandarim standard) com um sotaque respeitável e dentro do normal não se arranjava???

 

dóng lê máãããã????????? som parecido ao de uma ovelha a fazer méée!

 

p.s.: dong le ma? e não dóng lê máãããã?, quer dizer, "percebem?"

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Metamorfose

por mandarina, em 23.02.12

O "mandarina" está em pleno processo de metamorfose. Atendendo às sugestões, sempre bem-vindas, dos que me lêem decidi optar por um fundo mais suave, isto porque prezo a saúde visual dos meus leitores e não quero que os meus posts façam dor de cabeça a ninguém. Infelizmente estou com algumas dificuldades técnicas, é que eu e as CSS upa upa, somos amigas de longa data desde as saudosas (ironicamente falando) aulas de Multimédia. Por isso, enquanto não der com o problema, peço desculpa e paciência aos que tentem deixar comentários uma vez que aparece tudo preto.

O layout do blog também ainda não está como eu quero mas, eventualmente, hei-de lá chegar. Espero que gostem deste mandarina de cara lavada.

 

Metamorfose. Para quem já teve um bicho-da-sede sabe bem o que isso é, o bicho come come come, hiberna até ao dia que a lagarta vira borboleta.

Na vida real, o processo é, igualmente, demorado; nascemos, deixamos o aconchego do colinho da mamã, começamos a explorar, a descobrir, continuamos a crescer, ganhamos consciência de nós e dos outros, caímos, magoamo-nos, aprendemos, lá saímos debaixo das asas dos papas e vamos à luta pelos nosso próprio pé, batemos asas e voamos, e, eventualmente, como a mim me aconteceu, vimos parar ao outro lado do mundo, longe, muito longe do aconchego da família, dos amigos, da língua mãe, dos hábitos, e do país que adoramos dizer mal mas que amamos acima de qualquer um.

 

Eu gosto sempre de pensar que, passe o tempo que passar, eu continuo, na essência, igual a mim mesma, que continuo. Mas não nos iludamos em pensar que a vida não nos muda, não nos molda, não nos enrijece. Eu cresci mais neste ano fora de Portugal que nos últimos anos que lá vivi. E continuo a crescer. É a minha metamorfose levada ao extremo.

 

Metamorfose, interior e exterior. Este ano, 2012, tem-me feito descobrir mais sobre mim do que o ano que passou. Fez-me sentir que precisava de uma mudança de dentro para fora e vice-versa. Senti necessidade de mudar de look, de atitude, cortar com o que me fazia mal, e, focar-me mais em mim. Foquei-me nas minhas prioridades e bem-estar, nas minhas fraquezas e frustrações, e, especialmente, nos meus princípios e objectivos de vida. Tem de haver espaço para tudo, mas antes de nos concentrarmos nos outros, centremo-nos em nós.

 

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Ting bu dong

por mandarina, em 22.02.12

Para bom entendedor meia palavra basta. Num cenário ideal. Mas estamos na China, logo nem bom entendedor nem cenário ideal.

Os chineses são realmente seres caricatos e qual não é o grau de espanto visível nas fronhas deles quando nós os aliens*, laowais, waiguorens, ou wtv tentamos comunicar com eles em chinês. Sim, em chinês, frases simples, rotineiras, banais, e repetidas vezes sem conta, e eles feitos tonhós olham para nós, extra-terrestres, com os olhos muito esbugalhados, olham, mas fazem por não ouvir, e, normalmente, das duas uma: inventam e em vez de batatas dão-nos feijões (hoje em vez de chá dera-nos garfos) ou então, se, tiverem chineses por perto connosco recorrem em seu auxílio para que eles repitam o que, só há dois segundos, acabámos de dizer.

Já vi de tudo, chineses a rir-se quando vêem estrangeiros a falar em chinês, outros com cara de tacho, outros muito surpresos e WoW mas eles, aliens, falam a nossa língua WoW!

 

Sim, vocês têm uma língua facílima de se falar e entender (not), são só 4 tons + um neutro e uma data de inflexões quando se junta um tom ao outro que muda a coisa, mas dores de cabeça à parte, fazemos o nosso melhor para nos fazermos entender no mais básico que há. É que, por amor à santa, não há paciência para tanto espalhafato e já agora se se tentassem concentrar no que nós, os aliens, vos dizemos, em vez de pensarem que estamos a falar outra língua que não esta. Sim, eu sei que na cabecinha pequenina dos chineses os extra-terrestres falam outra língua, mas nós fazemos por falar esta, mandarim, chinês, han yu. 听不懂?ting bu dong? tás a ver ou nem por isso?

 

E por falar em ting bu dong, lembrei-me que amanhã tenho 听不懂 * class, ou seja, não percebo nicles e batatóides da aula de audição. Dor de cabeça.

 

*aliens classificação dada a qualquer estrangeiro ou turista que ponha um pé no reino do meio, 中国 (zhong guo ou China para os entendidos).

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Só na China #2

por mandarina, em 22.02.12

 

 

2 belos momentos de descontracção (e nudez) capturados nas ruas da China. É Verão, bora tomar uma banhoca na rua, e exibir a figurinha sexy!

 

在中国都可以 (zai zhongguo dou keyi)  --> Na China vale tudo

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