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Qual é o caminho?

por mandarina, em 10.12.12

De um dia para o outro passei de estudante a professora, e, às vezes, acho que ainda não encaixei bem esta mudança repentina. Ontem via-me a criticar os meus professores, hoje vejo-me a tentar não imitá-los, não lhes seguir os maus exemplos, a tentar dar o meu melhor ainda que isso exija mais de mim do que seria suposto ou normal, isto porque sou-vos sincera tenho tido de assumir uma postura de durona nas aulas e não sei até que ponto quero ser uma professora que massacra os alunos.

 

Massacrar no bom sentido, no sentido de os obrigar a esforçarem-se mais, de os obrigar a estudar, a estarem atentos, a respeitarem-me acima de tudo e até agora não tenho tido problemas, mas nem sempre é possível com quase 200 alunos mantê-los a todos no caminho certo. O rebanho é grande demais para conseguir salvar todos os carneirinhos.

 

Tenho adorado ensinar, sinto um grande orgulho nisso, verdadeiramente, não sei até que ponto fui feita para esta tarefa que é uma das mais louváveis do mundo, ensinar é quase como uma missão, é preciso uma grande entrega, e eu tenho tentado ser uma professora paciente, atenta, presente e amiga, compreensiva também, mas não compactuo com a preguiça, aquela de que também eu sofro, continuo a ser estudante de chinês e sei o quanto custa estudar uma língua totalmente diferente da nossa, mas é aí também que está o encanto, é na dificuldade que nos sentimos a cruzar ali o Cabo das Tormentas, e eu e eles, os meus alunos, continuaremos a remar para chegar a bom porto.

 

Também porque sei o quão difícil é, também lhes tento fazer ver que uma língua nova é como um tesouro, que temos de ir descobrindo pouco a pouco, desfrutando, e não ficando chateados porque é difícil, porque pensar numa outra língua é uma tarefa hercúlea, mas é possível, e quando chegamos ao outro lado, quando já compreendemos, quando já comunicamos, quando já a domámos sentimo-nos reis.

Com este meu trabalho descobri que há muita coisa a aprender para se poder ensinar eficazmente, que não basta sermos nativos numa língua para a ensinarmos e descobri também que a nossa própria língua é, por vezes, uma incógnita, na medida que transmiti-la é mais desafiante que dominá-la.

 

E agora em resposta a uma leitora e comentadora, a quem agradeço desde já os seus comentários curiosos e sempre perspicazes, digo-lhe que o ensino chinês pode ser verdadeiramente muito eficaz, porque os bons, os verdadeiramente bons alunos deste gigantesco país são como máquinas, conseguem num tempo record encaixar uma nova língua, mas desengane-se se pensa que é um processo natural. Não tendo conhecimento das realidades de Shanghai e Pequim garanto-lhe que os alunos são, sem dúvida, muito bons e muito trabalhadores, mas é à custa de sacrificar tudo o resto, é à custa de muito decorar, de muito "marrar", de, como verdadeiras máquinas, engolirem e assimilarem um dicionário tipo enciclopédia. E o fruto disso é essa posição mas deve-se, a meu ver, mais a sacríficio que a inteligência. Mas bom, se lhes valeu uma boa posição no ranking mundial da educação então todo o sacríficio terá valido a pena.

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3 comentários

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Rita a 10.12.2012

Mas também há aqueles que fazem perguntas fora do normal conteúdo da aula.
Estão interessados e até dá gosto. :)

Quanto ao ser professora, é de facto louvável. Penso que é necessário ser paciente, muito paciente, expressivo, perspicaz, divertido q.b., sério quando preciso, gostar minimamente do que se faz e gostar de comunicar. E acho que tens todas essas características! :)
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mandarina a 10.12.2012

Obrigada, espero bem q tenha mesmo :)
Tu tenho a certeza q tens, já comprovei isso :)
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Cristina a 12.12.2012

Olá Mandarina!
Agradeço muito a sua resposta. Nem imagina o quanto me auxiliou! O fato de você lecionar para criancinhas aos sábados e domingos já prova seu relato.
Aqui no Brasil, o baixo interesse em se empenhar é crescente: Só querem ser felizes, não fazem suficientemente a lição de casa, após o recreio é só bagunça...
E a preguiça aumenta com a idade; alunos da segunda etapa do ensino fundamental (início da adolescência), que deveria se empenhar mais, só vão à escola para se socializar (salvo cerca de 20% , que se esforçam para nadar contra a maré).
Um abraço.

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