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Actual numa América: a sangue-frio

por mandarina, em 07.08.12

Desde que os meus olhos depararam com este título de Capote há uns anos atrás que alimentei o desejo de lê-lo. Fi-lo agora e não me arrependo minimamente.

 

A sangue-frio de Capote, que apesar de ser um livro de 1966, é o espelho mais fiel da América actual no que a assassinatos ou, como agora se designa, terrorismo doméstico diz respeito. E cito um excerto do livro que reflecte bem esta realidade passada e presente: Pode haver quem pense que os olhos do país inteiro estão postos em Garden City durante este sensacional julgamento. Mas não é assim. Mesmo a cem milhas a oeste, no Colorado, poucas pessoas se lembram do caso; quando muito recordam-se do assassínio de todos os membros de uma família muito conhecida. Isto constitui um triste comentário ao modo como o crime está vulgarizado nesta nação.Desde que os quatro membros da família Clutter foram mortos no passado Outubro, vários assassínios múltiplos tiveram lugar em diversos pontos do Condado. Precisamente nestes dias que precederam o julgamento, mais três casos de assassínios colectivos foram anunciados nos cabeçalhos dos jornais. Portanto, este crime e este julgamento não são mais do que um entre tantos dos casos que lemos ultimamente e já esquecemos...

 

Este livro não deixa o leitor indiferente, não tanto pela crueza e análise imparcial dos crimes cometidos a sangue-frio, ainda que se debruce sobre as vítimas, assassinadas sem motivo aparente, mas principalmente por fazer uma análise detalhada dos criminosos, da sua natureza, personalidade, analisando o que esteve na origem do crime assente sobretudo numa desconhecida fúria assassina e prazer no acto de matar, massacrar e torturar física e mentalmente as suas vítimas. A parte final do livro debruça-se sobre o julgamento dos assassinos e na sua tentativa incansável de escapar à pena de morte por enforcamento praticado no estado do Kansas em finais dos anos 60.

 

Para acabar, e porque o livro vale mesmo a pena, mais que não seja para que percebamos um pouco da mente de um assassino, de como a pena de morte é vista e sentida por quem está no corredor da morte, e de como a sociedade sempre se dividiu entre a pena capital e a possível clemência destes actos selvagens.

Ficou por ver referido nesta obra de romance não-ficção o tão polémico assunto do porte de armas legal que, a meu ver, é o rastilho desta epidémica onda de assassinatos que atormenta os Estados Unidos há inúmeras décadas e sem fim à vista.

 

p.s.: das poucas ocasiões que tive oportunidade de discutir este assunto com um americano confesso que fiquei espantada por ver que está disseminado e aceite como direito legitimo na cultura americana o porte de armas domésticas, sendo encarado como a sua principal defesa contra ataques à sua integridade física enquanto que as estatísticas provam que todas estas mortes não sucederiam caso o porte de armas domésticas fosse proibido. Triste mas, principalmente, assustador.

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