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Desfocado

por mandarina, em 19.10.13

Violência doméstica. É um assunto muito sério neste país e não só. Enquanto mulher sinto-me na obrigação de alertar para a situação que muitas vezes se passam mesmo nas nossas barbas e muitas vezes preferimos ignorar, porque pensamos, eles são um casal, logo não é certamente um problema meu. Já dizia o provérbio, "entre marido e mulher não se mete a colher", mas não nesta situação. Eu creio que quem não consegue pôr-se na pele de uma mulher que está submetida, voluntaria (e sim também acontece) ou involuntariamente à violência doméstica não é suficientemente corajoso para denunciar estes casos antes que seja tarde demais.

 

No outro dia, quando estava a fazer o meu jantar, ouvi uns gritos bem altos de alguém, pensei que seria alguma excitação da habitual que viria de um grupo de amigas mais excitadas e eufóricas dos prédios circundantes. Mas o barulho não parava, e os gritos eram notoriamente não de excitação e sim de dor. A curiosidade levou-me a tentar, chegando-me junto da janela, perceber o que raio se passava. E bom, longe suficiente para perceber quem eram as personagens de tão acesa discussão, foi o suficiente para perceber que se tratava de um caso de violência doméstica. E não, não era sequer preciso ver o horror em si, porque por palavras ou apelos dela dava perfeitamente para perceber, que ele, o agressor, lhe assentava bem a mão ou o punho, enquanto ela gritava a plenos pulmões "pára, por favor pára" e muitos "não, não, não, mais não". Senti de imediato um nó na garganta.

 

Os vizinhos do prédio ao lado dos deles, tão estupefactos e assustados ao mesmo tempo, vinham constantemente à janela e assistiam, de muito mais perto que eu, ao que se passava. Eu não vi nada, admito, assumi que se passava uma cena de pancadaria, em que ela suplicava e tentava justificar qualquer coisa, e ele lhe batia continuamente. Sem apelo. E ninguém fazia mais do que assistir impassivelmente. Ninguém chamou a polícia, os vizinhos do prédio ao lado, lá acabaram por perder a curiosidade e fecharam a janela e foram embora, a cena lá acalmou, os gritos extinguiram-se e acredito que os ânimos do agressor e vitima também, ela imagino foi, para o seu canto, lamber as feridas e ele, talvez tenha tido um acesso de remorso ou lá foi à sua vida indiferente à dor física provocada.

 

Não está em questão o agressor ser homem e a mulher a vítima, por norma é assim, mas também sucede o contrário. Está em causa a violência, o mais forte contra o mais fraco. O que levanta a mão e aplica o castigo. E quem sofre a pancada e aguenta calada, a medo, com vergonha de ser julgada, com medo de "pra próxima ser bem pior", a dependência em que vive, a insegurança que sente, o pavor da exclusão social, como se fosse a vitima fosse a principal culpada pelo acontecido. E acredito que muitas sejam mesmo, porque é mentira que uma mulher não tenha escolha quando vê no parceiro os primeiros indícios de violência, e que são visíveis na primeira reacção mais exaltada, confirmada ao primeiro empurrão, no primeiro estalo, e que, muitas preferem encarar como uma descarga de adrenalina do parceiro que "jamais se irá repetir". Também as há, as que pensam mesmo que têm a culpa, que se julgam as provocadoras do descontrolo da situação.

 

Nestes casos de violência doméstica pública tudo está errado, os vizinhos que assumem que não é nada com eles. Custa-me perceber que se possa ignorar a situação e ir dormir descansadinho, quando muito provavelmente conhecem a vitima e seu agressor. Virar costas é sempre mais fácil. Amanhã será um dia melhor. Eu tenho a certeza que não, quem ameaça um dia, quem cumpre a ameaça uma vez vai voltar a fazê-lo vezes sem conta. Porque não é a vitima que o vai parar. A não ser que um deles seja parado. Ou tratado psicologicamente. Porque na verdade estas duas pessoas estão doentes e o mal está em não procurarem ajuda.

A certeza que tenho é, acredito que seja difícil sair duma situação destas, do papel de vitima, ninguém gosta de passar pelo fraco e oprimido, o que tem medo e procura asilo, é talvez como lutar sozinha numa guerra, é ter de passar vergonha e admitir que quem escolhemos para parceiro foi um grande erro, é virar a mesa e assumir o jogo, o que para a maioria de mulheres mais fracas é ficar à deriva num oceano cheio de perigos. Sendo o maior deles elas próprias com a falta de auto-estima, a falta de confiança, a falta de amor próprio e uma tremenda dependência.

 

E é aqui que eu acho que é necessário ter uma palavra a dizer, eu nunca estive e espero nunca vir a estar numa situação semelhante, mas compreendo que muito provavelmente no fundo da questão esteja um grande medo em ficar sozinha contra o mundo, solteira, divorciada, assumir o papel de vitima, e que pior que isso lutar contra o amor que essas vitimas, inconscientemente, sentem pelo agressor, porque gostar dos agressores, amá-los, até ao momento que esse amor não virar ódio, é a principal guerra que as vitimas tem de enfrentar, ainda que seja uma forma de amor muito distorcida. E aqui sublinho, amor que encurrala, amor que ameaça, amor que magoa física ou psicologicamente, que deixa marcas grosseiras na carne, que exige isolamento, do mundo, dos amigos, amigas, etc.... e que se serve da desculpa 'ciúmes' por tudo e por nada, não é amor. Ou antes, é, um amor doente e doentio que pode ter um final muito trágico. É um amor totalmente desfocado e disforme.

 

Por todas as vitimas da violência doméstica fica aqui um apelo, não tenham medo da solidão, maior solidão é aquela que o agressor, que diz que só vos quer para ele por vos amar demais, vos quer fazer viver.

E custa-me dizer mas os vizinhos, esses, não vão ajudar muito, mesmo que denunciem o caso, porque na verdade a única pessoa que pode ajudar uma mulher vitima de agressão é ela própria. Dizendo NÃO.

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1 comentário

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De Rita a 20.10.2013 às 05:10

Concordo com tudo. E até a agressão verbal é lamentável, poderá magoar tanto como a física. Que raiva, ninguém querer ajudar ou ninguém dizer nada, nem que fosse, "Ó..., o que é que está a fazer??". E a vítima é sempre quem sofre mais: as agressões, verbais e/ou físicas, a vergonha, os olhares dos outros, o medo permanente de tudo se repetir...

É muito triste. A minha mãe sempre nos disse, "Filhas, nem que ele (namorado, marido, companheiro) vos toque num fio de cabelo, saiam logo de casa!". Não vale a pena pensar que foi um desvario momentâneo. O respeito perdeu-se logo ali e já nada será como antes.

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